Participação social na restauração florestal: uma importante contribuição

Você já parou para pensar em como temos água e ar limpo disponíveis na Terra? De onde vêm esses e outros benefícios que a natureza nos proporciona? Sem cobrar nada por isso, os ecossistemas prestam serviços essenciais ao nosso bem-estar, chamados de serviços ecossistêmicos e são divididos em quatro categorias:


- Serviços de suporte: dão suporte para a vida na Terra, como a formação dos solos e os processos de crescimento das plantas e ciclagem de nutrientes.


- Serviços reguladores: promovem a regulação do clima, controle da precipitação local, remoção de poluentes pela filtragem do ar e da água e proteção contra deslizamentos de terra.


- Serviços de provisão: fornecem bens diretos às pessoas como alimentos, princípios ativos, madeira, água e fibras.


- Serviços culturais: Contemplação da natureza, lazer e recreação, inspiração para cultura e arte, valor educacional e científico e identidade espiritual e religiosa.


Imagem 1 - Paisagem comum na região do Vale do Paraíba – SP com predominância de pastagem e

pequeno fragmento florestal. Fonte: Própria autora, 2021.


Embora sua importância seja muitas vezes desvalorizada ou ignorada, quando ocorre a diminuição da biodiversidade, os serviços ecossistêmicos também são afetados, tornando os ecossistemas menos resilientes e comprometendo os processos ecológicos importantes para a sobrevivência de todos os seres vivos.


A restauração florestal é uma prática que visa a recuperação desses processos ecológicos em uma determinada área onde antes existia uma floresta e que foi impactada por atividades antrópicas ou desastres naturais. Essa reconstrução gradual da floresta permite restabelecer a biodiversidade e a estrutura da floresta em longo prazo.


Imagem 2 - Uma nascente, Área de Preservação Permanente (APP), completamente desprotegida.

Fonte: Própria autora, 2021.


No entanto, para que se consiga promover a restauração florestal com sucesso é imprescindível a participação coletiva e articulação com diversos atores: proprietários rurais, equipe de assistência técnica, poder público entre outros. E é aí que entra a mobilização e a participação social no processo de reestabelecimento da integridade ecológica dos ecossistemas.


Em se tratando especificamente de proprietários rurais, cabe lembrar que esse público não é homogêneo. A percepção do espaço, dos problemas ambientais e do elemento arbóreo na paisagem é diferente entre eles.


A pesquisadora Isis Morimoto (2002) buscando contribuir para a valorização, proteção e implantação de árvores e florestas em propriedades rurais no município de Piracicaba – SP realizou uma pesquisa sobre a percepção que os produtores da microbacia do Tamandupá possuem em relação ao elemento arbóreo e aos dispositivos de proteção ao mesmo. Ela constatou que 46% dos entrevistados possuem uma percepção média sobre a importância da árvore na propriedade sendo estes em sua maioria caracterizados como pequenos proprietários, com ensino fundamental, idade entre 51 e 70 anos, e não residentes na propriedade. Já em relação à legislação, 56,7% dos entrevistados têm uma percepção média e nenhum dos entrevistados apresentou visão boa ou ótima do assunto, demonstrando menor interesse para as questões legais.


Outro exemplo que podemos citar é em relação à adesão de proprietários rurais ao projeto de restauração de nascentes identificadas durante a realização do Diagnóstico Socioambiental da Sub-bacia Hidrográfica do Córrego Quatro Ribeiras localizado no município de Jacareí – SP. Conduzido pela equipe do Instituto Suinã, verificou-se que, mesmo após a etapa de sensibilização e mobilização social, apenas 39% dos proprietários existentes na Sub-bacia julgaram ser importante reestabelecer a cobertura florestal dessas áreas de preservação permanente para a proteção da qualidade e quantidade de água para consumo nesse município.¹


A partir do exposto e de outros resultados trazidos em sua tese, Morimoto sugere integrar esse público-alvo desde o início de projetos de restauração, considerando-o em todas as etapas, de forma contínua e dedicada, adotando métodos múltiplos de abordagem e intervenções, conversas informais e contatos via sindicatos rurais. Outro aspecto que pode contribuir na melhora da percepção ambiental é instigar o debate e questionamentos por meio de intervenções educacionais como palestras e cursos, promover o acesso à legislação ambiental vigente possibilitando o exercício da crítica e direcionar a criação de políticas efetivas de proteção ao meio ambiente, promovendo assim uma sinergia entre educação, legislação e política. Nós, do Instituto Suinã, corroboramos a autora e buscamos trazer esses aspectos em nossas abordagens.


Imagem 3 - Identificação de nascentes junto à proprietário rural no processo de mobilização social.

Fonte: Própria autora, 2021.


No entanto, a participação é uma escolha! Para que as pessoas decidam a participar de algo é necessário que elas se sintam motivadas a isso. Desta forma, mobilizar é convocar vontades para atuar na busca de um propósito comum, sob uma interpretação e um sentido também compartilhados (Toro & Werneck, 1996).


Talvez aí se encontre o maior desafio: compreender que o propósito comum da humanidade é garantir o bem-estar de todas as pessoas, resguardar a diversidade ecológica e produzir de forma sustentável! Afinal, quem aí não quer viver em um ambiente equilibrado e saudável?



Nota 1: O projeto é desenvolvido em parceria com a prefeitura de Jacareí – SP. Os resultados são preliminares pois o estudo final ainda não foi totalmente concluído.


Referências citadas no texto:


Morimoto, I. A. A árvore na propriedade rural: educação, legislação e política ambiental na proteção e implementação do elemento arbóreo na região de Piracicaba/SP, 2002.


Toro, J. B. & Werneck, N. M. D. F. Mobilização Social: um modo de construir a democracia e a participação, 1996.


Autora: Fernanda Scalambrino é mineira, silvicultora e bióloga. Especialista em Educação Ambiental e Transição para Sociedades Sustentáveis. Sócia-fundadora e Diretora Institucional do Instituto Suinã onde desenvolve projetos de conservação da biodiversidade, educação ambiental e mobilização social. Atualmente mora em São José dos Campos - SP.




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